Aquela era para ser uma sexta-feira comum. Estudar de manhã, ir para casa, dar uma volta à noite e depois dormir. Quando eu estava voltando para casa, encontrei um colega que me chamou para ir a uma festa. Ele disse que a garota que ele tinha convidado não iria mais e que ir sozinho não tinha graça. Perguntei por que ele não ficava em casa então, mas ele disse que se ficasse tinha que tomar conta da irmã pequena. Ora essa, se o negócio era só sair de casa, por que então não ir a um outro lugar qualquer em vez de uma festa que tava na cara que ele não estava tão a fim de ir? Ele argumentou que da festa dos pais já sabiam, se falasse que ia para outro lugar poderia soar como invenção e blá blá blá... Enfim, como eu dificilmente recuso uma festa com churrasco acabei indo.
Enquanto caminhávamos para a local da festa, notei que iríamos para uma rua que mais parecia um beco. Cheguei a pensar que seria uma festa barra pesada. No entanto, qual não foi a minha surpresa ao ver que tinha um salão de festas no local. Entretanto, era algo meio desproporcional. O salão era bem grande, mas a rua (sem saída) era um beco mesmo. Estreita, de mão única (se é que se pode chamar um beco sem saída de mão única) e com vários carros estacionados em cima da calçada. E o pior é que chovia, aumentando mais a confusão na rua. Entrar no salão foi quase uma corrida com obstáculos.
Ao pisar no salão, me arrependi de ter vindo. Era festa de 18 anos de um tal de Ricardo, mas parecia até festa de 15 anos de mulher. Só tinha aqueles pingados de comida nos pratos, o aniversariante parecia até um príncipe de debutante e tinha até valsa! Parecia que tinham planejado uma festa de 15 anos para alguma garota, a festa não houve e resolveram aproveitá-la para aquele cara. E o pior era estar num lugar onde não se conhecia ninguém. Todo mundo olhava para a gente como se fôssemos estranhos (e éramos mesmo). Só então resolvi perguntar ao meu amigo de onde ele conhecia o aniversariante e foi aí que ele me disse que tinha estudado com o cara há uns 5 anos antes. Perguntei se ainda mantinham contato, mas ele disse que não. Apenas encontrou o cara numa lotérica e foi convidado para a festa. Que ótimo hein?
Enfim, tudo acontecia no clima mais tedioso possível até que o aniversariante sumiu. Todos perguntavam por ele e nada. Até que ele voltou com a mão na barriga, com cara de enterro e amparado por um parente. Disseram que havia sido apenas uma indisposição intestinal. Imagina só: você está numa festa, comendo e de repente o aniversariante aparece com dor de barriga! Fica meio temeroso continuar comendo né? Ficou um clima péssimo na festa, todos os convidados super sem-graça. Vendo que a festa tinha esfriado, o pai do aniversariante sugere a todos que o bolo seja cortado (sinal de festa encerrando né?). Bolo? Fala sério que eu ia comer aquele bolo! Nem era conhecido de ninguém mesmo. Fui embora e percebi que outras pessoas haviam feito o mesmo.
Do lado de fora estava uma confusão incrível. Parecia o centro do Rio às 5 da tarde. Buzinas, pessoas gritando e carros para tudo que era lado. A maioria das pessoas (inclusive eu) resolveu ficar parada em frente ao salão esperando a confusão diminuir (o que foi acontecendo aos poucos). Até que de repente, alguém observou a seguinte cena: um casal de namorados entrou no carro. A namorada tentou beijar o cara no carro e ele rejeitou empurrando a garota com as duas mãos e dizendo “sai”. Foi aí que alguém no meio da multidão gritou: “ih, o cara é a maior bicha!” Então toda a multidão começou a gritar: “BICHA! BICHA! BICHA!” Parecia uma manifestação. As pessoas então cercaram o carro do cara e começaram a sacudi-lo. Exceto pelos gritos de BICHA, pareciam fãs cercando o carro de um ídolo.
O cara no carro estava bem irritado e a namorada escondia o rosto com as mãos. O carro dele começou a andar devagar tentando escapar da multidão que continuava os gritos: BICHA, BICHA, BICHA! Quanto mais o cara xingava as pessoas, mais fortes eram os gritos. Até que ele finalmente conseguiu escapar da multidão, arrancou forte com o carro e virou a esquina. Só que a rua era um beco estreito, difícil de fazer curva em alta velocidade. Assim, ao virar a curva, ouvimos um barulho de batida. Todo mundo correu para ver o que tinha sido e vimos que o carro tinha batido num poste. Não havia sido uma batida grave, pegou meio de quina e só amassou mesmo um pouco da frente do carro. Nem o cara nem a namorada sofreram. Entretanto, a reação da multidão foi bem surpreendente: imaginem o grito de GOL de uma torcida no Maracanã. Foi assim que foi o grito de ÊÊÊÊÊÊÊÊ da multidão ao ver o carro batido! E recomeçaram, ainda mais fortes, os gritos: BICHA, BICHA, BICHA, BICHA! A namorada do cara saiu do carro e não sei para onde foi, ao passo que ele apenas abaixou a cabeça no volante e lá ficou imóvel.
O tempo passava e a multidão não se continha nos gritos. Até que de repente chegou a polícia (talvez a namorada tenha chamado). Finalmente os gritos de bicha pararam. O policial conversou com o cara, perguntou a algumas pessoas como tudo tinha ocorrido e foram embora para a delegacia junto com o acidentado. Quando as portas da viatura fecharam, voltaram os gritos: BICHA, BICHA, BICHA! Para uma festa tediosa, até que o final foi bem movimentado. Nessa hora me lembrei de uma frase do Chaves: o cara que bateu podia até não ser Bicha por opção, mas agora era por maioria de votos. Espero que ele não tenha comido aquele bolo também. Ser chamado de Cagão era a última coisa que ele precisava agora...
quinta-feira, 17 de fevereiro de 2005
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