Segunda-feira, 2 de outubro. No dia seguinte após as eleições, não havia outro assunto mais comentado que o pleito. E se há um lugar onde encontramos os comentários mais ecléticos, esse lugar é a banca de jornal. Hoje cedo, caminhando pelo Largo da Carioca, resolvi parar em uma banca para ler as manchetes. Cada jornal (com exceção dos jornais com tema específico, como os esportivos) tinha uma manchete com uma análise diferente em relação ao resultado. Enquanto eu lia, chegaram mais três pessoas que ao que parece se conheciam: um deles usava óculos e carregava um embrulho de jornal; o outro estava apenas de blusa branca, braços cruzados e cheios de pulseiras; do terceiro, só deu para ver que ele usava camiseta azul, pois ele entrou rápido na banca. Pouco depois, chegou um quarto homem trajando um terno preto.
Após algum tempo de leitura silenciosa, o homem das pulseiras, lendo a manchete de O DIA (que dizia “Voto de Paulista define a eleição”) resolve se manifestar:
_ Pô cara, ta vendo só? Por isso que odeio paulista...
Sem entender nada, o homem de óculos pergunta:
_ Por que cara?
_ Ah pô, por causa deles é que vai ter segundo turno. Eles que votaram no “Alque”.
_ Poxa, mas não foram só eles né? Teve muito Estado aí que não votou no Lula.
_ Eu sei cara, mas foi São Paulo que decidiu. Pode ver que eles foram os últimos a terminar. Eles ficaram esperando a parada terminar pra ajudar o “Alque”.
_ Que isso cara, tu acha que depois de todo mundo já ter votado eles mudaram os votos? Não dá para fazer isso não, “rapá”!
_ Ah, tu que acha que não? É ruim de não cara, o “Alque” é que manda lá em São Paulo. Se “neguinho” não arranjasse para ele lá ele passava o rodo em geral.
O cara de terno acompanhava a discussão com um leve sorriso de ironia. Mas então resolveu entrar na discussão apresentando as manchetes do GLOBO e do EXTRA, que se limitavam a dizer que haveria segundo turno.
_ Amigo, olha só: São Paulo acabou por último porque lá tem muita gente que vota. Olha os outros jornais, todos eles falam que o país ta dividido. Tem muita gente que não é de São Paulo que gosta do Alckmin.
Com isso, o cara das pulseiras resolve levar a discussão para um plano mais pessoal:
_ Tu votou no “Alque”, né?
_ Não, votei no Cristóvão – respondeu o cara do terno.
_ Poxa cara, Cristóvão? Se tu tivesse votado no Lula já tinha acabo esse troço.
_ Ué, a gente tem que votar em quem acha que é melhor, tá certo? – disse o homem do terno olhando para o de óculos.
_ Tá certo, e não foi só você que votou nele não, olha aqui – respondeu o de óculos apontando para alguns números no jornal.
O cara das pulseiras não se conformava e continuava apontando para a manchete de O DIA:
_ Rapá, isso não quer dizer nada, olha aqui. Foi São Paulo que zuou essa parada.
_ Amigo, olha os outros jornais – o homem do terno já estava perdendo a paciência – não é porque isso tá escrito aí que você vai achar que São Paulo sabotou a eleição. Não tem nada a ver, não foi só paulista que votou no Alckmin.
_ Cara, eu to falando o que ta escrito. Ta escrito aqui e acabou. Foi paulista que zuou a parada mesmo.
_ Poxa, mas se eles gostam do Alckmin é problema deles, ué?
_ Gostam nada, o cara é que mandou eles mudarem a parada lá quando viram que ia dar Lula.
_ Como é que vai mudar cara?
_ Só tu ler no jornal, pô. Um monte de gente não votou. Quando eles tão contando os votos, esse pessoal que não votou vai lá e vota no “Alque”.
_ Mas como cara??? Não dá para votar depois que acaba!
_ Ah, vocês que acham que não dá. Olha aí no jornal pô, um monte de fraude num monte de lugar.
O homem de terno e o de óculos já estavam com humor alterado. Continuavam apontando para os outros jornais para mostrar para o das pulseiras que outros Estados ajudaram Alckmin a ir para o segundo turno, apesar da maioria dos votos para o Tucano ter vindo de São Paulo. Eu, já afastado, achei que aquilo ainda duraria muito. Cada um apontava para um jornal diferente e apresentava seu argumento. Quando tudo apontava para uma longa discussão, eis que o cara de camiseta azul (que havia entrado na banca antes da discussão começar, lembra?) sai da banca com o Jornal dos Sports aberto e comenta?
_ Aí galera, Fla-Flu na quarta vai ser sinistro hein?
Após isso, fim de papo!
segunda-feira, 2 de outubro de 2006
quarta-feira, 13 de setembro de 2006
O Metrô
Ressuscitando o Blog, vou contar um fato recente que ocorreu com um amigo meu. Como sempre faço, para não expô-lo, não vou me referir a ele pelo seu nome real. Assim, vou chamá-lo de Gilberto. A estação de metrô é um local onde acontecem vários fatos inusitados. Acho que daria para contar muitas histórias aqui sobre casos no Metrô, mas por enquanto vou ficar só nessa.
O serviço de metrô no Rio de Janeiro pode não ser nenhuma maravilha, mas também não deixa tanto a desejar. Pelo menos eu acho muito melhor do que pegar ônibus. Entretanto, é curioso o modo como algumas pessoas se comportam no metrô. Mesmo nos horários de pico, é difícil ver os trens chegarem em um intervalo superior a 10 minutos (o que já é muito). Mas ainda assim, as pessoas insistem em correr para pegar o metrô. Devido a isso já tive o desprazer de ver cenas lamentáveis como uma senhora cair de cara no chão ao tropeçar na escada rolante, um senhor idoso escorregar na escada e ainda derrubar um rapaz próximo... Isso sem contar nos que conseguem colocar o pé no vão entre o trem e a plataforma.
Sei lá, esse estilo de viver apressado, querer andar sempre na frente, deve ser coisa de carioca mesmo. É impressionante como a maioria das pessoas sempre espera o metrô no local exato onde a porta vai parar. Talvez para poder entrar com mais facilidade, já que nesse caso não precisa fazer força. E quando entram, continuam parados na porta para poder sair mais rápido. Eu fico com pena da pessoa do alto-falante que às vezes recomenda que se dê preferência ao trem seguinte que virá mais vazio. Quase sempre é ignorado.
Infelizmente esse lance de superlotação é um problema mesmo. Dependendo do horário, às vezes nem o trem extra vem vazio. E como aqui no Brasil sempre se dá solução-tampão para os problemas, para resolver a questão do incômodo das mulheres com vagões lotados, não criaram novos vagões (o que seria o mais óbvio). Em vez disso, reservaram vagões para elas (aliás, ta virando moda esse negócio de reservar aqui no Brasil). Bom, e é nessa história de pressa, lotação e reservas que Gilberto entra.
Já que todos estão com pressa no metrô, o estado de Gilberto naquela manhã poderia não chamar a atenção das demais pessoas. Mas Gilberto estava indo apresentar um produto em uma empresa na Glória e, com isso, ele estava realmente com pressa. Como a lei de Murphy não falha nunca, bastou Gilberto passar pela roleta para o metrô chegar na estação. Claro que ele tentou correr pela escada para pegá-lo a tempo, mas não conseguiu e teve de esperar pelo próximo. Nesse intervalo, eis que ele encontra um antigo colega na estação. Encontrar pessoas que não vemos há tempos é sempre um fato marcante. Durante meia hora temos muita coisa para conversar, depois vem o silêncio absoluto. Como o intervalo entre os trens é menor que meia hora, Gilberto não teve tempo de por toda a fofoca em dia que seu amigo (que por acaso iria pegar o trem no sentido oposto). Assim, o trem chegou no meio do papo. As portas já estavam abertas, mas Gilberto ainda teve tempo de anotar o telefone do amigo (questão de educação, até hoje ele não ligou) na mão e depois pulou para dentro do metrô como se fosse Indiana Jones saindo de um calabouço com a porta se fechando.
Já dentro do Metrô, Gilberto agradece pela sorte de ter conseguido um vagão vazio. Então, nota a presença de jovem garota ao seu lado. Sendo a garota dotada de uma beleza peculiar, Gilberto não tira os olhos dela. Até que o trem chega na outra estação. Gilberto ainda admirava a jovem quando de repente um dos seguranças do metrô para com os braços abertos em frente à porta e grita em sua direção: “Amigão, esse vagão é só para mulher, vai ter que descer”! Gilberto ficou atônito. Na pressa de entrar no vagão, nem reparou que era exclusivo para mulheres. Seu estado de choque era tão grande que ficou imóvel e calado. Estar ali já era vergonhoso, mas descer diante de todos seria pior ainda. Para sua surpresa, muitas senhoras que estavam no vagão saíram em sua defesa. Elas disseram ao segurança que Gilberto estava quieto, não estava incomodando ninguém e poderia ficar. Fazendo aquela cara de pena, o segurança resolveu deixar nosso amigo seguir viagem.
Ainda atordoado, Gilberto agradeceu o apoio dado. Mas ainda tentou se justificar dizendo que não tinha nada chamativo no trem que indicasse que era de mulheres. Bom, quem pega metrô no Rio sabe que os detalhes em cor-de-rosa nesses vagões são bem destacados, enfim...
E depois desse episódio lamentável, Gilberto chegou na empresa. Ainda estava meio tonto, mas resolveu esquecer. Afinal, todo mundo se engana e ninguém fez nenhum comentário que o deixasse mais para baixo. A apresentação que tinha de fazer ainda demorou um puco para começar e com isso ele teve tempo de se recuperar. Assim, Gilberto deixou tudo para lá e fez a apresentação de seu produto para uma equipe de funcionários da empresa. Ao final, perguntou a todos se alguém tinha alguma pergunta a fazer. Eis que uma mulher levanta a mão e diz: “Era você que estava no vagão de mulheres, não era?” Adivinhem agora quem foi motivo de risos e comentários ao longo daquele dia? Isso sem falar no restante das perguntas daquela apresentação....
O serviço de metrô no Rio de Janeiro pode não ser nenhuma maravilha, mas também não deixa tanto a desejar. Pelo menos eu acho muito melhor do que pegar ônibus. Entretanto, é curioso o modo como algumas pessoas se comportam no metrô. Mesmo nos horários de pico, é difícil ver os trens chegarem em um intervalo superior a 10 minutos (o que já é muito). Mas ainda assim, as pessoas insistem em correr para pegar o metrô. Devido a isso já tive o desprazer de ver cenas lamentáveis como uma senhora cair de cara no chão ao tropeçar na escada rolante, um senhor idoso escorregar na escada e ainda derrubar um rapaz próximo... Isso sem contar nos que conseguem colocar o pé no vão entre o trem e a plataforma.
Sei lá, esse estilo de viver apressado, querer andar sempre na frente, deve ser coisa de carioca mesmo. É impressionante como a maioria das pessoas sempre espera o metrô no local exato onde a porta vai parar. Talvez para poder entrar com mais facilidade, já que nesse caso não precisa fazer força. E quando entram, continuam parados na porta para poder sair mais rápido. Eu fico com pena da pessoa do alto-falante que às vezes recomenda que se dê preferência ao trem seguinte que virá mais vazio. Quase sempre é ignorado.
Infelizmente esse lance de superlotação é um problema mesmo. Dependendo do horário, às vezes nem o trem extra vem vazio. E como aqui no Brasil sempre se dá solução-tampão para os problemas, para resolver a questão do incômodo das mulheres com vagões lotados, não criaram novos vagões (o que seria o mais óbvio). Em vez disso, reservaram vagões para elas (aliás, ta virando moda esse negócio de reservar aqui no Brasil). Bom, e é nessa história de pressa, lotação e reservas que Gilberto entra.
Já que todos estão com pressa no metrô, o estado de Gilberto naquela manhã poderia não chamar a atenção das demais pessoas. Mas Gilberto estava indo apresentar um produto em uma empresa na Glória e, com isso, ele estava realmente com pressa. Como a lei de Murphy não falha nunca, bastou Gilberto passar pela roleta para o metrô chegar na estação. Claro que ele tentou correr pela escada para pegá-lo a tempo, mas não conseguiu e teve de esperar pelo próximo. Nesse intervalo, eis que ele encontra um antigo colega na estação. Encontrar pessoas que não vemos há tempos é sempre um fato marcante. Durante meia hora temos muita coisa para conversar, depois vem o silêncio absoluto. Como o intervalo entre os trens é menor que meia hora, Gilberto não teve tempo de por toda a fofoca em dia que seu amigo (que por acaso iria pegar o trem no sentido oposto). Assim, o trem chegou no meio do papo. As portas já estavam abertas, mas Gilberto ainda teve tempo de anotar o telefone do amigo (questão de educação, até hoje ele não ligou) na mão e depois pulou para dentro do metrô como se fosse Indiana Jones saindo de um calabouço com a porta se fechando.
Já dentro do Metrô, Gilberto agradece pela sorte de ter conseguido um vagão vazio. Então, nota a presença de jovem garota ao seu lado. Sendo a garota dotada de uma beleza peculiar, Gilberto não tira os olhos dela. Até que o trem chega na outra estação. Gilberto ainda admirava a jovem quando de repente um dos seguranças do metrô para com os braços abertos em frente à porta e grita em sua direção: “Amigão, esse vagão é só para mulher, vai ter que descer”! Gilberto ficou atônito. Na pressa de entrar no vagão, nem reparou que era exclusivo para mulheres. Seu estado de choque era tão grande que ficou imóvel e calado. Estar ali já era vergonhoso, mas descer diante de todos seria pior ainda. Para sua surpresa, muitas senhoras que estavam no vagão saíram em sua defesa. Elas disseram ao segurança que Gilberto estava quieto, não estava incomodando ninguém e poderia ficar. Fazendo aquela cara de pena, o segurança resolveu deixar nosso amigo seguir viagem.
Ainda atordoado, Gilberto agradeceu o apoio dado. Mas ainda tentou se justificar dizendo que não tinha nada chamativo no trem que indicasse que era de mulheres. Bom, quem pega metrô no Rio sabe que os detalhes em cor-de-rosa nesses vagões são bem destacados, enfim...
E depois desse episódio lamentável, Gilberto chegou na empresa. Ainda estava meio tonto, mas resolveu esquecer. Afinal, todo mundo se engana e ninguém fez nenhum comentário que o deixasse mais para baixo. A apresentação que tinha de fazer ainda demorou um puco para começar e com isso ele teve tempo de se recuperar. Assim, Gilberto deixou tudo para lá e fez a apresentação de seu produto para uma equipe de funcionários da empresa. Ao final, perguntou a todos se alguém tinha alguma pergunta a fazer. Eis que uma mulher levanta a mão e diz: “Era você que estava no vagão de mulheres, não era?” Adivinhem agora quem foi motivo de risos e comentários ao longo daquele dia? Isso sem falar no restante das perguntas daquela apresentação....
segunda-feira, 27 de março de 2006
A Banca de Jornal
Quando eu estava na pré-aborrecência, tinha o costume de colecionar álbum de figurinhas. Acho que deve ter tido qualquer álbum lançado entre 1988 e 1995 que não fosse o famigerado “Amar é” ou algum da Xuxa (blargh!). Além disso, como sempre estudei na mesma escola durante todo o primeiro grau, acabei pegando o hábito de sempre comprar figurinhas na mesma banca que ficava próxima. Assim, acabei fazendo amizade com o dono da banca, o qual era conhecido apenas como Zé.
Quem nunca bateu um papo com um dono de banca de jornal, não sabe a quantidade de histórias que essa galera conta. Da sua simples banca, “seu” Zé observava todo o calçadão de Caxias e conversava com os mais variados tipos de pessoas. Havia até quem fosse desabafar com ele. Uma certa vez, eu nem pude comprar figurinhas porque “seu” Zé estava ocupado ouvindo um cara chorando porque a mulher o tinha deixado.
Enfim, o tempo passou, eu entrei no segundo grau e parei de colecionar figurinhas. Mas continuei lendo jornais e por isso, continuei freqüentando a banca do “seu” Zé. Como já me conhecia de longa data, “seu” Zé permitia que eu folheasse e lesse os jornais de esportes sem ter de pagar (é claro que eu lia na frente dele e devolvia depois). Assim, todos os dias, antes da aula começar, eu dava uma passadinha lá, dava uma folheada nos jornais e ainda batia um papo com “seu” Zé.
Foi então que num fatídico dia, estava eu folheando o jornal do sports enquanto “seu” Zé lia um outro, quando chegou o principal personagem desta história. O cara aparentava ter uns 25 anos, parecia estar nervoso, pois se aproximou da banca lentamente e esfregava muito uma mão na outra. Tremulando um pouco, ele perguntou ao seu “Zé”: “tem o último número da G Magazine?”. Eu continuei de cabeça baixa lendo o jornal para não deixar o coitado mais nervoso ainda. “Seu” Zé, profissionalmente, simplesmente disse que tinha e entregou a revista para o rapaz informando o preço. Ainda nervoso, o rapaz entregou o dinheiro e pegou a revista dizendo: “é que um primo meu que está lá em casa pediu para comprar para ele porque não conhece nada aqui”. Mantendo a postura profissional, “seu” Zé simplesmente disse “tá certo” e voltou a ler o jornal enquanto o trêmulo rapaz ia embora.
Aí a gente indaga o seguinte: poxa, ninguém perguntou nada para o cara, pra que ele ficou se justificando? Foi exatamente o que pensei na hora. É quase como uma confissão de culpa. Isso me lembra (meus amigos da UFF também devem lembrar) um professor que tive na UFF que volta e meia dizia na aula “eu não sou viado e vocês sabem disso”. Dava vontade de perguntar se alguém tinha dito que ele era.
Bom, o mico do cara já seria grande se ficasse só nisso. Mas eis que após se afastar um pouco da banca, o rapaz pára, olha para trás, ameaça voltar, desiste, pára de novo e enfim resolve voltar. Eu fiquei olhando tudo por cima do jornal um tanto surpreso, enquanto “seu” Zé continuava lendo sem perceber que o cara voltava. Quando ele chegou já foi dizendo: “olha, meu primo não mora comigo não tá? Ele só ta passando uns dias aqui”. “Seu” Zé permaneceu na mesma posição, manteve os braços esticados segurando o jornal. Apenas virou o pescoço, olhou para o cara com a expressão mais perplexa que vocês podem imaginar, ficou em silêncio uns 5 segundos e disse “tá bom amigo”. Então o cara fez sinal de OK com o polegar, balançou a cabeça e finalmente foi embora.
Depois disso eu não tive como conter a risada. Quando o cara já estava longe, “seu” Zé se levantou, pôs as mãos na cintura e ficou olhando o cara ir embora. Depois de um tempo, virou-se para mim e perguntou “será que esse tal primo é enrustido que nem ele?” Vai se saber né? De repente era até o primo dele que saiu na revista...
Quem nunca bateu um papo com um dono de banca de jornal, não sabe a quantidade de histórias que essa galera conta. Da sua simples banca, “seu” Zé observava todo o calçadão de Caxias e conversava com os mais variados tipos de pessoas. Havia até quem fosse desabafar com ele. Uma certa vez, eu nem pude comprar figurinhas porque “seu” Zé estava ocupado ouvindo um cara chorando porque a mulher o tinha deixado.
Enfim, o tempo passou, eu entrei no segundo grau e parei de colecionar figurinhas. Mas continuei lendo jornais e por isso, continuei freqüentando a banca do “seu” Zé. Como já me conhecia de longa data, “seu” Zé permitia que eu folheasse e lesse os jornais de esportes sem ter de pagar (é claro que eu lia na frente dele e devolvia depois). Assim, todos os dias, antes da aula começar, eu dava uma passadinha lá, dava uma folheada nos jornais e ainda batia um papo com “seu” Zé.
Foi então que num fatídico dia, estava eu folheando o jornal do sports enquanto “seu” Zé lia um outro, quando chegou o principal personagem desta história. O cara aparentava ter uns 25 anos, parecia estar nervoso, pois se aproximou da banca lentamente e esfregava muito uma mão na outra. Tremulando um pouco, ele perguntou ao seu “Zé”: “tem o último número da G Magazine?”. Eu continuei de cabeça baixa lendo o jornal para não deixar o coitado mais nervoso ainda. “Seu” Zé, profissionalmente, simplesmente disse que tinha e entregou a revista para o rapaz informando o preço. Ainda nervoso, o rapaz entregou o dinheiro e pegou a revista dizendo: “é que um primo meu que está lá em casa pediu para comprar para ele porque não conhece nada aqui”. Mantendo a postura profissional, “seu” Zé simplesmente disse “tá certo” e voltou a ler o jornal enquanto o trêmulo rapaz ia embora.
Aí a gente indaga o seguinte: poxa, ninguém perguntou nada para o cara, pra que ele ficou se justificando? Foi exatamente o que pensei na hora. É quase como uma confissão de culpa. Isso me lembra (meus amigos da UFF também devem lembrar) um professor que tive na UFF que volta e meia dizia na aula “eu não sou viado e vocês sabem disso”. Dava vontade de perguntar se alguém tinha dito que ele era.
Bom, o mico do cara já seria grande se ficasse só nisso. Mas eis que após se afastar um pouco da banca, o rapaz pára, olha para trás, ameaça voltar, desiste, pára de novo e enfim resolve voltar. Eu fiquei olhando tudo por cima do jornal um tanto surpreso, enquanto “seu” Zé continuava lendo sem perceber que o cara voltava. Quando ele chegou já foi dizendo: “olha, meu primo não mora comigo não tá? Ele só ta passando uns dias aqui”. “Seu” Zé permaneceu na mesma posição, manteve os braços esticados segurando o jornal. Apenas virou o pescoço, olhou para o cara com a expressão mais perplexa que vocês podem imaginar, ficou em silêncio uns 5 segundos e disse “tá bom amigo”. Então o cara fez sinal de OK com o polegar, balançou a cabeça e finalmente foi embora.
Depois disso eu não tive como conter a risada. Quando o cara já estava longe, “seu” Zé se levantou, pôs as mãos na cintura e ficou olhando o cara ir embora. Depois de um tempo, virou-se para mim e perguntou “será que esse tal primo é enrustido que nem ele?” Vai se saber né? De repente era até o primo dele que saiu na revista...
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