Quando eu estava na pré-aborrecência, tinha o costume de colecionar álbum de figurinhas. Acho que deve ter tido qualquer álbum lançado entre 1988 e 1995 que não fosse o famigerado “Amar é” ou algum da Xuxa (blargh!). Além disso, como sempre estudei na mesma escola durante todo o primeiro grau, acabei pegando o hábito de sempre comprar figurinhas na mesma banca que ficava próxima. Assim, acabei fazendo amizade com o dono da banca, o qual era conhecido apenas como Zé.
Quem nunca bateu um papo com um dono de banca de jornal, não sabe a quantidade de histórias que essa galera conta. Da sua simples banca, “seu” Zé observava todo o calçadão de Caxias e conversava com os mais variados tipos de pessoas. Havia até quem fosse desabafar com ele. Uma certa vez, eu nem pude comprar figurinhas porque “seu” Zé estava ocupado ouvindo um cara chorando porque a mulher o tinha deixado.
Enfim, o tempo passou, eu entrei no segundo grau e parei de colecionar figurinhas. Mas continuei lendo jornais e por isso, continuei freqüentando a banca do “seu” Zé. Como já me conhecia de longa data, “seu” Zé permitia que eu folheasse e lesse os jornais de esportes sem ter de pagar (é claro que eu lia na frente dele e devolvia depois). Assim, todos os dias, antes da aula começar, eu dava uma passadinha lá, dava uma folheada nos jornais e ainda batia um papo com “seu” Zé.
Foi então que num fatídico dia, estava eu folheando o jornal do sports enquanto “seu” Zé lia um outro, quando chegou o principal personagem desta história. O cara aparentava ter uns 25 anos, parecia estar nervoso, pois se aproximou da banca lentamente e esfregava muito uma mão na outra. Tremulando um pouco, ele perguntou ao seu “Zé”: “tem o último número da G Magazine?”. Eu continuei de cabeça baixa lendo o jornal para não deixar o coitado mais nervoso ainda. “Seu” Zé, profissionalmente, simplesmente disse que tinha e entregou a revista para o rapaz informando o preço. Ainda nervoso, o rapaz entregou o dinheiro e pegou a revista dizendo: “é que um primo meu que está lá em casa pediu para comprar para ele porque não conhece nada aqui”. Mantendo a postura profissional, “seu” Zé simplesmente disse “tá certo” e voltou a ler o jornal enquanto o trêmulo rapaz ia embora.
Aí a gente indaga o seguinte: poxa, ninguém perguntou nada para o cara, pra que ele ficou se justificando? Foi exatamente o que pensei na hora. É quase como uma confissão de culpa. Isso me lembra (meus amigos da UFF também devem lembrar) um professor que tive na UFF que volta e meia dizia na aula “eu não sou viado e vocês sabem disso”. Dava vontade de perguntar se alguém tinha dito que ele era.
Bom, o mico do cara já seria grande se ficasse só nisso. Mas eis que após se afastar um pouco da banca, o rapaz pára, olha para trás, ameaça voltar, desiste, pára de novo e enfim resolve voltar. Eu fiquei olhando tudo por cima do jornal um tanto surpreso, enquanto “seu” Zé continuava lendo sem perceber que o cara voltava. Quando ele chegou já foi dizendo: “olha, meu primo não mora comigo não tá? Ele só ta passando uns dias aqui”. “Seu” Zé permaneceu na mesma posição, manteve os braços esticados segurando o jornal. Apenas virou o pescoço, olhou para o cara com a expressão mais perplexa que vocês podem imaginar, ficou em silêncio uns 5 segundos e disse “tá bom amigo”. Então o cara fez sinal de OK com o polegar, balançou a cabeça e finalmente foi embora.
Depois disso eu não tive como conter a risada. Quando o cara já estava longe, “seu” Zé se levantou, pôs as mãos na cintura e ficou olhando o cara ir embora. Depois de um tempo, virou-se para mim e perguntou “será que esse tal primo é enrustido que nem ele?” Vai se saber né? De repente era até o primo dele que saiu na revista...
segunda-feira, 27 de março de 2006
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