Na semana passada, meu professor da UFF de Histórias das Formas, marcou uma aula no MAM (Museu de Arte Moderna). Eu nunca gostei muito dessas aulas de campo. Geralmente os alunos se dispersam e a aula acaba sendo mais um passeio do que uma aula. Talvez por isso alguns professores cobrem trabalhos em cima da aula. É uma forma não apenas de forçar os alunos a aparecerem, mas também de obrigá-los a não se dispersarem. Enfim, minha primeira dificuldade foi chegar no MAM. Tinha me dito que o museu ficava ao lado do aeroporto Santos Dummont e para lá eu fui. Bem, não era exatamente do lado, porque ao chegar no aeroporto não vi nada que lembrasse um museu (com exceção de uma Brasília que passava pelo local). Resolvi perguntar a um taxista e este, surpreendentemente, me disse que não tinha a menor idéia de onde ficava. Nossa, se nem u m taxista sabe onde fica o museu, quem vai saber? Resolvi dar uma volta pela primeira rua que me apareceu na frente e acabei achando o museu!
Com toda a turma reunida, compramos as entradas. Ao chegar na roleta, percebi que a máquina não estava puxando o bilhete. Antes que eu perguntasse a alguém qual era o problema, o porteiro me disse que a roleta estava com defeito e que eu podia passar sem inserir o bilhete. “Puxa vida, porque eu gastei dinheiro nisso se eu podia entrar de graça”, pensei meio bolado. Nessa hora me deu vontade de chegar no meio da rua e contar para todos que passassem que a entrada no MAM hoje era de graça. Fala-se tanto que o povo precisa de cultura, por que não abrir as portas de um museu?
Ao entrar no museu levei um susto com uma televisão bem de frente à escada de acesso ao andar com as obras. Uma TV no museu? De repente percebi que a TV ficava o tempo todo mostrando mãos sendo lavadas numa pia. Continuei sem entender até me dizerem que aquilo era vídeo-arte! Nossa, estamos mesmo na era da informática! Passado esse susto, escutei o professor dizendo que era para que nós observássemos tudo e procurássemos analisar as obras com um olhar crítico. Crítico... Agora eu iria cumprir um papel o qual nunca esperei ter de cumprir um dia: crítico de arte. Enfim, lá fui eu...
E aqui começam as minhas indagações. Quando eu reclamo de certos tipos de arte, as pessoas me acusam de não gostar de arte. Mas isso não é verdade. Eu gosto sim de ver quadros e esculturas desde que na primeira olhada eu consiga entender o que a obra significa. Acho que a partir do momento que é necessário que outra pessoa te explique o significado de uma obra, quer dizer que a idéia não foi bem passada. Forma inúmeras sucessões de quadros com rabiscos, cores fortes, borrões, enfim, nada que eu compreendesse. Só não fiquei viajando mais porque no mesmo dia havia uma excursão de alunos do primário de alguma escola. Como bom jornalista, enquanto a “tia” explicava os quadros para as crianças, eu anotava palavra por palavra.
De repente, eis que vi no chão vários pedaços de madeira enfileirados ao lado da parede. Juro que a primeira impressão era de que estavam fazendo obras no museu. Até que cheguei mais perto e vi que aquilo era uma escultura! Olha, aquilo só é obra de arte porque está dentro do museu. Pedaços de madeira enfileirados eu já vi em várias madeireiras e eu sempre paguei barato por eles. Geralmente obras de arte costumam ser bem caras.
Andando mais um pouco, dei de cara com um paletó pendurado na parede e um cinto preso a uma madeira. Paletó e cinto pendurados? Isso é arte moderna? Se alguém me disse que aquilo era a roupa de algum funcionário eu não iria duvidar. O que mais me impressiona é que várias pessoas paravam e olhavam aquilo com muita admiração. E pro falar em funcionários, eu fiquei com pena deles. Ficam o tempo todo parados no museu, vigiando para que ninguém toque nas obras. Beleza, trabalho necessário e nobre, mas, caramba, deve ser bem chato. Imaginem só, ficar o dia inteiro de pé parado dentro de um museu. Se eu que estava andando, já não estava agüentando, imaginem eles que ficam parados!
Eu já tinha quase no final das obras quando me deparei com mais uma surpresa: bem no canto da sala, havia vários tubos e conexões encaixados formando uma figura geométrica não facilmente identificável. Poxa, tubos e conexões (e nem eram TIGRE)? Vá em qualquer loja de material de construções que você verá vários tubos conectados. Eu mesmo já cansei de fazer daqueles bonequinhos que ficam em balcões dessas lojas (talvez eu poderia ter ganhado algum dinheiro). É mais um exemplo de arte que só é arte porque está num museu, francamente. Aliás, primeiro foram os pedaços de madeira e agora tubos e conexões. Acho que eu nunca tinha visto obras de arte que fossem tão ligadas ao nome “obra”.
Era isso, já havia visto tudo que o museu tinha e agora eu só estava esperando pela chamada do professor. Ao me aproximar da saída, vi um homem sentado num banco e dormindo. Pensei “quem sabe isso também não é uma obra de arte”? Ora, se existe “O Pensador”, porque não poderia existir “O Dorminhoco” ou “O Preguiçoso”? Bem, obra de arte ou não, eu já estava cansado de andar e resolvi sentar num dos bancos. Eu já estava quase sentado quando me toquei que aquele “banco” também poderia ser uma obra de arte. Se até madeira e conexões são arte, porque um banco de bronze não poderia ser? Resolvi averiguar bem antes para não correr risco de um vexame.
Passou-se um tempo e o professor enfim fez a chamada. Peguei todas as minhas anotações e desci as escadas para ir embora. Antes disso, olhei para aquela TV que eu havia visto no início e constatei uma coisa interessante: as mãos ainda estavam sendo lavadas! Acho que aquela é a única obra de arte que também presta serviço de utilidade pública.
quinta-feira, 4 de novembro de 2004
Assinar:
Postar comentários (Atom)

Nenhum comentário:
Postar um comentário