domingo, 14 de novembro de 2004

O Ônibus

Essa história aconteceu há algum tempo atrás. Eu tinha de fazer um trabalho eu fui até a Biblioteca Nacional. Na saída, acabei encontrando uma amiga minha chamada Marcela. Conversamos um pouco e depois fomos para o ponto pegar o ônibus. Enquanto íamos para o ponto, percebi que um rapaz vinha correndo para alcançar o ônibus que já estava no ponto. O ônibus começou a andar e o rapaz parou de correr como se desistisse de pegá-lo. De repente o ônibus parou. O rapaz ameaçou voltar a correr, parou, pensou e correu de novo. No mesmo instante o ônibus voltou a andar. O rapaz jogou uma das mãos para o alto como quem dissesse “dane-se” e desistiu de correr. Imediatamente o ônibus voltou a parar. “É agora ou nunca”, deve ter pensado o rapaz. Ele estufou o peito, levantou os joelhos e foi em disparada para o ônibus. Este, também em disparada, arrancou do ponto, deixando lá o rapaz aos palavrões e socos ao vento. É, lei de Murphy é um caso sério....
Bem, passado isso, eu fiquei lá no ponto esperando um ônibus para a Central enquanto Marcela esperava um para Copacabana. Ponto de ônibus é um fenômeno social. É incrível como se vê de tudo lá. Pessoas falando de sua própria vida para os outros (sem que estes tenham perguntado), pessoas querendo saber da vida dos outros (sem que estes queiram falar), comentários sobre os mais diversos assuntos e gente de todo tipo. Entre essas pessoas, uma que me chamava bastante atenção era um cara que queria vender vales-transporte. Esse tipo se alastrou e já existe em todos os lugares, tais como os flanelinhas. Gostaria de saber onde eles arranjam tantos vales para vender, pois todos os dias esses caras estão nos pontos querendo trocar. Esse especificamente me chamou a atenção pela maneira de falar. Geralmente esses “trocadores de vale” apenas chegam até você e perguntam se quer trocar o dinheiro por vale. Esse não! Esse chegava nas pessoas e dizia: “troca esse vale para mim”. Se a pessoa dissesse não, o cara ficava indignado. Dizia “porra, tu não vai pegar ônibus, não vai gastar o dinheiro mesmo? O que é que tem tu trocar meu vale então? Porra, deixa de vacilo!”. Eu já tinha visto flanelinhas coagirem e intimidarem motoristas para ganhar dinheiro, mas trocador de vale era a primeira vez. Era possível ver o susto e o medo no semblante de algumas pessoas. Eu já estava pensando em que resposta dar para o cara quando antes de ele chegar até mim, os vales acabaram. É, dessa eu escapei...
Meu ônibus e o de Marcela estavam demorando. Até que uma Van para Copacabana apareceu. Marcela ficou na dúvida, hora ela ameaçava ir, hora ele desistia. Dava para ver a agonia na cara dela, parecia pensar “meu Deus, pegou ou não pego essa Van?” O motorista deve ter percebido a dúvida nas expressões dela e perguntou olhando para ela: “Copacabana?” Marcela deu um sorrisinho sem graça e balançou o dedo em sinal negativo para o motorista. Assim que a Van foi embora, Marcela disse: “Puxa, eu devia ter pegado essa Van”. Ora essa, então por que não pegou, pensei. Antes que eu perguntasse, ela disse, como quem quisesse, se justificar que os motoristas dessas Vans são muito barbeiros, mas que quase subiu ao ver a porta aberta. É, realmente, naquele calor e com aquela demora, a Van realmente era tentadora. Até eu que não iria para Copacabana tive vontade de subir. Até que depois de um tempo eis que surge o ônibus para Copacabana. Marcela era a única do ponto que esperava por ele e correu para dar o sinal. Despediu-se de mim e se dirigiu para a porta de trás do ônibus. Quando ela já ia subir, viu que uma senhora descia pela porta. “Tsc Tsc Tsc, que isso hein?”, disse Marcela para a senhora como se reprovasse a atitude de descer pela porta traseira. A senhora não entendeu nada e disse que a saída era por ali mesmo. Marcela deu um sorriso sarcástico e começou a subir as escadas. Nesse momento a porta se fechou e quase derrubou Marcela da escada. Ela ficou bem irritada e começou a socar a porta. Eis que todos os passageiros do ônibus começaram a gritar: “Entra pela porta da frente!!!” Marcela ficou totalmente desorientada, sem entender nada. As pessoas no ponto apontavam para a porta da frente como se quisessem orientá-la. Marcela ainda estava meio incrédula quando gritaram com mais força: “Pela porta da frente!!!!” Ainda não são todos os ônibus que têm a entrada pela porta da frente e com certeza isso confundiu Marcela. De cabeça baixa, ela foi para a porta da frente e subiu. Em mais um ato confuso, ela parou nas escadas, contou o dinheiro para a passagem e o entregou para o motorista. Esse fez uma cara bem debochada, sorriu e disse: “Não, você paga ao cobrador”. As pessoas no ônibus riam pra valer, algumas até gritavam “vamos logo garota!” Marcela pagou a passagem e se sentou bem no canto com a cara mais envergonhada possível. A essa altura ela deveria estar pensando: “Por que não peguei a Van?”

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