sábado, 4 de dezembro de 2004

Os Penetras

Oi pessoal. Devido a provas e trabalhos, fiquei impossibilitado de atualizar o blog antes. Agora que estou mais relaxado, aí vai uma história que se passou quando eu tinha 16 anos de idade:

Era para ser um dia de sábado comum. Eu voltava do futebol com uns amigos quando um deles, Jéferson, falou que tinha uma festa de 15 anos maneira para irmos. Sempre achei que festas de 15 anos são como desfiles de escola de samba: muda o tema musical, mas o cenário é sempre o mesmo. É uma falsa formalidade que gera até um desconforto às vezes. Nessas festas, ficam todos esperando acabar logo aquele longo cerimonial para a verdadeira festa começar.

Bem, eu já havia dito que não estava a fim antes que Gilson perguntasse quem era a aniversariante. A resposta de Jéferson foi a mais inesperada possível: “sei lá!”. Ora, quando se vai a uma festa, pode até ser que você não leve presente para o aniversariante, mas deve no mínimo saber o nome dele. Ninguém entendeu nada e Jéferson explicou que perto da casa dele havia um salão no qual haveria uma festa de 15 anos à noite. E como o porteiro do local era companheiro de sinuca do tio de Jéferson, este achou que poderíamos entrar facilmente de penetras! Olha, foi uma sensação estranha. Era como se alguém tivesse me convidado para um assalto. Novamente meu primeiro gesto foi de recusa. Mas foi aí que Jéferson disse uma frase interessante: “entrar de penetra vai dar o toque de adrenalina que falta às festas de 15 anos”. Bom argumento. Que mal faria uma aventura dessas aos 16 anos de idade? Resolvi aceitar.

À noite chegamos no local da festa. Fiquei meio aflito, pois percebi que o porteiro recolhia convites das pessoas que entravam. A poucos metros da entrada, Jéferson pediu que esperássemos enquanto ele falava com o porteiro. Ele chegou lá, deu um abraço com direito a tapinha nas costas do cara. Conversaram por uns 15 minutos até que Jéferson nos chamou e nos apresentou ao porteiro. Depois disso voltou a conversar com o homem e fez sinal com a cabeça para nós entrarmos. Ficamos meio confusos mais entramos. 5 minutos depois, Jéferson entrou nos dizendo para ficarmos o mais longe possível da porta. Brincadeira, eu estava crente que ela havia negociado pacificamente a nossa entrada. Mas enfim... Já na festa, percebi que aquele papo de adrenalina era real. Não ficamos nenhum minuto entediados, pois tínhamos de olhar toda hora de um lado para o outro para ter certeza de que ninguém nos descobriu. O tempo foi passando e fomos relaxando mais. O comes e bebes estava muito bom e até a música parecia agradável.

Foi aí que Rogério caiu na besteira de dar em cima de uma garota. De tantas garotas que havia na festa, ele foi escolher justamente a irmã da debutante! A garota foi saber da irmã (a debutante) quem era ele. A debutante arregalou os olhos, franziu a testa e abriu a boca. Para nós aquilo tinha um significado bem claro: “sujou”. Falei com Jéferson para irmos embora, mas ele disse que não era para eu me preocupar. Eu ainda tentava convencê-lo quando a música parou subitamente. Eis que surgiu o pai da debutante com uma expressão de fúria psicótica. Ele parou no meio do salão e disse “não vai ter mais p. nenhuma de festa até que todos os penetras vazem daqui!”. Que vergonha... Nem dava para disfarçar, pois o cara e a filha olhavam diretamente para nós. Abaixamos a cabeça e saímos. O interessante é que além de nós quatro, saíram ainda mais umas dez pessoas. Parece que o porteiro jogava sinuca com muita gente...

Do lado de fora, Jéferson estava inconformado. Era como se ele tivesse perdido uma final de campeonato. Tudo que ele dizia era que a noite não poderia acabar daquele jeito. Foi então que ao virar uma esquina ouvimos barulho de música. Seguimos o som e demos de cara com uma recepção de casamento. Eu já estava quase dando meia volta quando Jéferson estampou um sorriso no rosto e disse: “Essa não tem nem porteiro. Vamos à forra!” Mais tarde descobriríamos que havia porteiro sim, só que este estava bebendo em uma das mesas. Nós que não tínhamos nada com isso, entramos e sentamos numa mesa.

Correu tudo bem. Refrigerante e salgadinhos à vontade e ninguém parecia desconfiar de nós. Já pensávamos em ir embora quando os noivos se aproximaram da nossa mesa. Percebemos que eles viam para nos cumprimentar e ficamos completamente sem ação. Antes que fizéssemos alguma coisa os noivos chegaram e nos cumprimentaram. O noivo perguntou se estávamos sendo bem servidos. Dissemos que sim, mas que já estávamos de saída. Foi então que o noivo olhou bem para o rosto de Jéferson e disse: "Você não é sobrinho do Artur?" "Sou sim", respondeu Jéferson com suor na testa. "Poxa, e cadê o Artur, por que não veio?", perguntou o noivo. Eu já pensava em dizer que Artur não tinha vindo porque havia perdido a Excalibur, quando Jéferson disse: "Ah é que ele teve que viajar com minha tia". O noivo arregalou o olho surpreso e curioso e disse: "Mas ele e a Lúcia não tinham separado?" Eu não sabia se ria ou se chorava. Jéferson se saiu com essa: "É, eu falo tia em consideração. Na verdade é uma amizade colorida dele...". O noivo deu uma gargalhada, apertou a mão de Jéferson e saiu para outra mesa.
Ficamos rindo bastante por uns 5 minutos e assim que os noivos estavam bem longe resolvemos sair de fininho da festa. Gilson queria ficar, pois agora é que estava realmente legal. Realmente, mas não seria bom abusar da sorte. Além disso, aquele que luta e foge, vive para lutar num outro dia.

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