sábado, 18 de dezembro de 2004

A Camisa

Esta história aconteceu em 1998. Era um ano em que o meu querido clube Botafogo tinha algo que se podia chamar de time. Tinha Bebeto, Túlio, Sérgio Manoel, enfim. Era um time tão bom que havia chegado à final do Torneio Rio-São Paulo. Eu já havia decidido assistir ao jogo no Maracanã. Comprei os ingressos antecipadamente e resolvi comprar uma camisa nova do clube. Eu já tinha todos os tipos de camisas alvinegras, menos a que era toda preta. Assim, procurei-a por toda cidade até achá-la na vitrine de uma loja.

Foi uma cena meio estranha. Alem da camisa do Botafogo, o manequim também usava um boné do Flamengo e um short do Vasco. Isso é que é ser variado. Cheguei a pensar que a loja poderia possuir poucos manequins, mas um pouco mais atrás havia um completamente despido! Coitado, o que teria ele feito? O dono da loja preferia misturar cores de diferentes clubes em um mesmo manequim do que colocar algo naquele despido. Aliás, manequins são uma grande prova do preconceito na sociedade. Alguém já viu algum manequim gordo? Que nada, são todos fortes e saradões. E o incrível é que a utilidade do manequim, além de expor a roupa, também é a de mostrar como a roupa ficaria no seu corpo. Ora, será que os lojistas acham que todo mundo é magro?

Enfim, vamos voltar à camisa. Mal coloquei o pé na loja e veio uma garota me atender. Então eu disse que queria uma camisa preta do Botafogo tamanho G. A menina fez uma cara de poucos amigos, já dando a entender que seria difícil achar G. Ela foi até a prateleira, revirou tudo, encheu o balcão de camisas e nada de achar uma G. Eu já estava quase desistindo quando ela finalmente encontrou uma. Minha alegria só durou até eu perceber que na parte de trás da camisa estava o número 6. Puxa, eu queira muito a camisa, mas comprar justo a do lateral esquerdo? Acho que nunca vi ninguém usar uma camisa de clube com o número 6. E o pior é que era a única G que havia na loja. A vendedora ainda insistiu um pouco, mas não dava. 6 não...

Eu já estava quase saindo quando percebi que aquela camisa da vitrine tinha o número 7 nas costas. 7 sim é um bom número, especialmente quando se trata de Botafogo. Reparei que o manequim não tinha tão mais corpo que eu (viram a utilidade do manequim) e perguntei se o tamanho dela era G. A vendedora disse que sim, mas que não poderia tirar da vitrine. Ora, se está na vitrine não é para vender? Por que não poderia tirar? Resolvi insistir, afinal eu não acharia outra camisa daquela até a hora do jogo. A vendedora continuou negando e chegou a dizer “por que não leva a 6 mesmo? De 6 para 7 é só 1 de diferença!” Só 1 de diferença? Ora essa, existe muita diferença entre o lateral esquerdo e o ponta direita (e no caso do Botafogo, isso faz mais diferença ainda). Tentei convencê-la disso e ela resolveu ir até outro vendedor. Ficou uns 2 minutos falando com o cara e depois este veio até mim perguntando qual era o problema (qual era o problema? Ora, sobre o que a vendedora tinha falado com ele?). Eu disse que queria a camisa da vitrine e ele disse que não poderia tirá-la de lá (!). Que droga, vendedor diferente, mas o mesmo problema. O cara alegou que só podia vender as camisas da prateleira e que as camisas da vitrine só serviam para chamar atenção das pessoas na rua (ou seja, isca de peixe). Aí eu me enfezei. Abri os braços e disse que aquilo era quase como uma propaganda enganosa, pois eles estavam anunciando que tinham uma camisa 7 preta do Botafogo para vender, mas na verdade não tinham. Aí ele resolveu mudar o discurso, disse que a camisa na vitrine estava meio suja. Parecia que havia ouro na camisa, pois ele não queria me vender mesmo! Eu disse que não tinha problema, que eu lavaria. Aí o cara novamente mandou essa: “por que não leva a 6 mesmo?” Nem discuti mais, só disse que se eu não levasse a 7, não levaria nenhuma outra.

Depois de muita discussão, o vendedor resolveu ir até o gerente que ficava numa sala de vidro. Parecia uma cena do Poderoso chefão. O vendedor tirou o boné para falar com o cara, andou devagarzinho, abaixou a cabeça e falou do problema (eu suponho, pois o medo que ele parecia ter do gerente era tanto que até a voz saiu baixa). Bem, o gerente não teve toda a sutileza do vendedor. De onde eu estava foi possível ouvir o gerente gritar: “tira da vitrine, ué! Vai deixar de vender a camisa só porque via ter de trocar a camisa da vitrine?” Ou seja, no fim das contas tudo não passava de preguiça e má vontade dos vendedores. O vendedor veio bastante sem graça e tirou a camisa da vitrine.

Assim, finalmente eu consegui comprar minha camisa. Meu pensamento era chegar em casa e dar uma boa lavada na camisa. Não apenas pela sujeira (que o vendedor disse que haveria), mas também por um possível mal olhado do vendedor, já que fez o serviço de muita má vontade. Quando eu estava saindo, o vendedor estava colocando a camisa 6 na vitrine no lugar onde estava a 7. Aí eu tive de dizer “essa você nunca vai precisar tirar daí, pode ter certeza”. Queimei a língua. Passou um mês, eu já tinha até esquecido disso (o Botafogo já até tinha sido campeão), quando vi um amigo com a camisa 6 preta do Botafogo. Meio curioso eu resolvi comentar: “Pô cara, comprou justo um 6?” Aí ele me disse: “Pois é, só tinha essa. E ainda estava na vitrine!” Gostaria de ter visto a cara do vendedor.

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