quinta-feira, 30 de dezembro de 2004

O Pão Duro

O principal personagem dessa história é um velho amigo meu chamado Jéferson. Alguns colegas meus acham que sou meio pão-duro, mas depois de lerem isso acredito que mudem de opinião. Eu poderia escrever várias histórias sobre a sovinice de meu amigo, mas vou contar apenas um breve caso de uma noite.

Era um dia de sábado e eu havia combinado com uns amigos (entre ele o Jéferson) de irmos juntos ao cinema à noite. Quando se sai com amigos sempre há aquela cerimônia de telefonemas que antecedem a saída. São ligações com mensagens bem curtas, são alguns “E aí, vai?”, “Vou”, “Onde?”, “Ta tudo certo?”, “No mesmo lugar?”, enfim...

Alguns de meus colegas iam com as namoradas. Uns encontravam o grupo antes de ir buscá-las, outros já chegavam no cinema com elas. Entre os que iam com namorada estava o Jéferson. Mas curiosamente ele estava na porta do cinema sem ela. Todos nós então achamos que ela ainda iria chegar então ficamos parados na porta esperando. Isso era bem típico do jeito sovina do Jéferson. Não buscava a namorada para não ter que pagar passagem para ela ou coisa assim. Depois descobriríamos que era algo pior ainda.

Foi aí que Jéferson virou e perguntou se estávamos esperando mais alguém. Ficamos meio sem graça e perguntamos se a namorada dele não viria. Ele disse que sim e que ela já estava lá dentro da sala do cinema! Não dava para acreditar. Ele tinha marcado com ela dentro do cinema só para não correr o risco de pagar a entrada para ela. E ainda dava para ela a desculpa que preferia assim porque não gostava que ela ficasse parada na porta! O pior foi ver o cinismo dele contando as fileiras do cinema dizendo que havia marcado com ela na quarta fileira de cima para baixo. E lá estava a santa namorada dele. E com várias bolsas e sacolas marcando lugares. Que santa...

Bem, passado isso o filme começou. Cheguei a sugerir, sarcasticamente, ao Jéferson comprarmos alguns sacos de pipoca, mas ele me respondeu com um sutil vai a m. Mas após o término do filme já não dava para disfarçar a fome. Algumas barrigas já roncavam e a namorada de Jéferson já estava com os olhos no fundo. Foi aí que ela virou e disse que estava com fome. Então, meu querido amigo Jéferson disse a seguinte frase: “ainda bem que jantei antes de sair de casa”. Aquilo foi inacreditável, um choque para todos que observavam e escutavam. Como é que Jéferson poderia ir tão longe? Eu não sabia se me indignava ou se achava graça da cara que ele fez. Então meu amigo Carlos teve a brilhante idéia de todos racharmos uma pizza gigante. Ficamos um pouco receosos com o que Jéferson poderia dizer, mas ele aceitou. Mas é claro que na hora de pagar a pizza ninguém se atreveu a pedir a ele que contribuísse. “A idéia foi de vocês”, teria dito ele.

E essa foi a desastrosa noite. Durante vários momentos alguns colegas ficava cochichando sobre o cara-de-pau do Jéferson. Mas só que não acabou por aí. Na hora de ir embora, Carlos perguntou se era melhor pegarmos um ônibus ou racharmos um táxi. Sabem o que Jéferson disse? “Ah, a noite está tão bonita? Por que não vamos a pé?” Acho que na hora que ele deu a mão para a namorada foi o único momento da noite em que a mão dele abriu...

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